quarta-feira, julho 05, 2006

O insustentável peso da paternidade


Ser pai acarreta grandes responsabilidades. Há decisões que podem condicionar, de forma indelével, a forma como os filhos irão olhar para o Mundo. Mesmo as decisões mais comezinhas, do dia-a-dia, podem ter resultados, influências inomináveis, que se voltarão contra nós com o apoio de um qualquer psicanalista acusador. Ele é mau aluno? Devia ter investido mais tempo a ajudá-lo nos deveres da escola. Ele não consegue manter-se num emprego? Talvez tenha exagerado no valor das mesadas que lhe dei.
Uma das decisões mais críticas e mais influentes que um pai pode tomar na vida de um puto consiste na escolha da escala dos soldadinhos de plástico. Mais do que a marca (Airfix, Revell, Italieri, etc.) ou a época histórica preferida (Romanos, WWII, Napoleónica, etc.), o dilema entre o 1/72 ou o 1/35 é uma decisão de proporções gigantescas, para as quais conheço poucos pais que estejam devidamente preparados.
O 1/72 tem vantagens óbvias: possibilidade de mais soldados, de mais variedade, de um domínio superior sobre os pequenos humanos. Por seu lado, o 1/35 tem uma qualidade de acabamento e de pormenor infinitamente superior, permitindo até, para alguns pais mais dotados, a pintura dos soldadinhos.
Optei pelo 1/72. E terei de viver com o peso dessa decisão.
A próxima decisão afigura-se ainda mais complexa e marcante: qual a escala que devo escolher para a linha de comboio? Esta decisão ainda é mais definitiva, porque representa não só a escolha de uma bitola como condiciona todas as carruagens no futuro!
Sinto-me esmagado pelo peso da responsabilidade. É por estas e por outras que se diz que ninguém está preparado para ser pai! Porque é que não tive uma filha?!