domingo, janeiro 01, 2006

O pequeno génio do Mal


O pequeno gnomo que anda lá por casa impôs um regime ditatorial cruel, que não se compadece com os bens com os quais partilha as instalações. Sejam termómetros pela janela, DVD's riscados, paredes escavacadas, máquinas fotográficas estropiadas, mulheres-a-dias lesionadas, não há nada que o impeça de infligir um prejuízo semanal de 20 a 30 contitos. O duende tem 2 anos e meio e apenas vai a um Atelier de Tempos Livres duas manhãs por semana, sobrando-lhe o resto do tempo para a estragação lá em casa.

Há uma personagem incontornável nesta história: uma senhora de 70 anos que acompanha o pequeno gnomo na sua (pequena, porém profícua) carreira criminosa. Vamos chamar-lhe Sissi (nome inventado) para facilidade de identificação.
Na quinta-feira da semana passada cheguei a casa em boa hora - exactamente a tempo de ver o pequeno terrorista cometendo dois actos criminosos, um a seguir ao outro. Inicialmente, no que mais tarde se revelou ser não mais do que uma manobra de diversão, mandou 3 almofadas de sofá e uma manta para o chão da sala, após o que, numa corrida sinuosa pelo corredor e aproveitando-se do facto de eu reagir com a celeridade do Polga num dia não (ou seja, não reagir), almejou alcançar o seu quarto e pulverizá-lo com pó de talco (pela 3ª vez nessa semana).
Tive de tomar medidas disciplinares: "Já de castigo!", gritei.
O castigo não terá durado mais de 5 minutos. Por meio de promessas lancinantes choradas com o coração nas mãos (promessas essas que depois serão esquecidas, qual pacto Germano-Soviético de 1939 ignorado por um outro famoso ditador), o pequeno hobbit consegue enganar mais uma vez o seu progenitor (este desgraçado que aqui escreve, convertido em não mais de um repositor de material estragado lá de casa).
Revoltei-me com mais esta cedência a que fui sujeito (Chamberlain em Munique entregando a Checoslováquia numa bandeja, em 1938?) e decidi tomar uma opção de força: "Agora vais arrumar as 3 almofadas!". A reacção do pequeno gnomo foi a esperada: "Sissi!".
"Porra, que a cúmplice dele ainda cá está em casa!", lembrei-me eu. "E agora, o que é que eu faço? Bom, sigo em frente com esta abordagem, para ela aprender como se deve actuar com ele e não o deixar fazer tantas asneiras", penso eu. "Ainda me vai agradecer, já que desde que o puto lhe deixou uma marca no cotovelo depois de lhe ter agredido com uma escumadeira que a acho, sei lá, mais permissiva".
"Sissi! Sissi!". O grito pungente assombra-me as noites, desde então. Mas não, "a reacção não passará!", pensei eu - "é por uma boa causa".
"Sissi! Sissi!". Da cozinha, noto um silêncio ensurdecedor. Bolas, esqueci-me que me meti com uma parelha: Bonnie e Clyde - ele manda, ela faz. Ou deixa fazer, o que no caso vai dar ao mesmo...
Pronto, mais vale fazer uma pausa, deixar a senhora ir embora para casa dela e depois retomamos esta acção de formação.
Deixo o pequeno gnomo ir ter com a sua cúmplice. É um abraço xaroposo, que me faz lembrar uma cena de um filme de que já não me recordo, de quando o assassino sai da penitenciária e encontra a namorada que esperou por ele durante 20 anos.
Para meu espanto, meu enorme espanto, a Sissi está lavada em lágrimas - "Meu querido! Meu lindo", balbucia ela. Ficam uns bons 5 minutos agarrados um ao outro, ela a tremer, ele já com certeza a arquitectar um próximo plano malévolo. E eu, o novo ogre lá de casa, a sentir-me a Personificação do Mal, o Darth Vader, o George W. Bush, o Co Adriaanse, deslocadíssimo nesta cena retirada de uma qualquer novela venezuelana de faca-e-alguidar. E o pequeno génio do mal há-de engendrar novos crimes, dignos de me transformar os dias num filme indiano, como diriam os outros...